Battle Studies: J. Mayer

•fevereiro 5, 2010 • Deixe um comentário

Ouço. Ouço novamente. E conforme ouço um pouco mais passo a perceber que John Mayer inspira-se, cada vez mais, em si próprio. De certa forma, ele cita a si próprio e consegue ter toda a razão a seu favor.

Capa do álbum Battle Studies (2009) – Fonte: www.johnmayer.com

Efetivamente, trata-se de um disco diferente dos anteriores; mais efetivamente ainda, trata-se de um disco que parece colecionar o que há de melhor na obra do guitarrista. Daí dizer que John Mayer inspirou-se na própria obra. Mas isso não significa que suas declaradas influências não estejam presentes.

Como esperado e de costume: guitarras levadas ao máximo do bom gosto, tanto na execução como no timbre. A sensação que se tem é que John Mayer é um dos grandes pesquisadores da guitarra; a amplitude de timbre que ele encontra para usar dentro de um mesmo estilo, dentro de um mesmo disco, é espetacular.

Mas o que vai dar nó na cabeça da maioria dos produtores musicais é o som da bateria; ou, melhor dizendo: os plurais sons da bateria.

Geralmente, produtores optam por um som homogêneo por todo os disco. Por exemplo, quem conhece os dois principais discos da carreira da banda americana Paramore (que usamos de exemplo dada a perfeição do processo de gravação, mixagem e masterização, sem qualquer juízo valorativo relacionado ao estilo, que é pessoal) pode perceber que o som da bateria é o mesmo da primeira à última música, exceto nas músicas mais lentas e, por assim dizer, climáticas, quando a mixagem provoca uma guinada no som do instrumento conveniente à música.

Isso não ocorre em Battle Studies. Cada faixa possui sua peculiaridade relacionada ao som da bateria. Principalmente no tocante à caixa e ao bumbo. Pode notar. O disco possui três ou quatro caixas completamente diferentes umas das outras; da grave (anos 80) à aguda (anos 70 e do novo milênio, predominantes no Rock, Pop e Soul Music). Em uma faixa específica, War of My Life, o som da bateria em muito me lembrou os discos da banda Fleetwood Mac.

Isso é importante porque muitos produtores optam pela padronização do som da bateria, geralmente por motivo de “não querer arriscar” ou para facilitar o processo da mixagem. Até concordo que essa homogeneidade favorece ao disco, em uma certa forma de compreensão. Por outro lado, essa variação abre espaço para que a música seja compreendida em seu próprio universo; cada composição, cada produção, deve, a despeito de cuidar de um disco, cuidar para que cada faixa seja explorada da maneira mais adequada possível, o que possibilita em muito essa variação de sonoridade.

Quero dizer: a variação sóbria da sonoridade, aquela que não resulta de erro ou aventura irresponsável, só favorece e pode ser considerada muito importante.

A principal consideração que preciso fazer, sem redução da importância das anteriores, é sobre a fluência do Battle Studies: amigos leitores, o disco flui como água. Acho que isso se deve à combinação dos andamentos das músicas com o delay. Acho.

Temos, portanto, que o disco deve ser ouvido. Sim, porque ouvir é uma atividade muito mais eletrizante do que não ouvir. Apreço pessoal e específico: Faixa 09 – Edge of Desire.

Trata-se de um autêntico J. Mayer.

Paulo Gianini

@paulogianini

O transporte metropolitano e a cultura independente.

•janeiro 19, 2010 • Deixe um comentário

Galeria de (R!) BARALLE, Renata, acessado em 19-01-10, às 01:43 em http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://farm3.static.flickr.com/2167/2089447330_04217803cb.jpg%3Fv%3D0&imgrefurl=http://flickr.com/photos/lackofsomething/2089447330/&usg=__e_FMDbUl7CkDiUlQyCkz7rsNoAQ=&h=375&w=500&sz=221&hl=pt-BR&start=5&um=1&tbnid=y5zLslqJvzbkgM:&tbnh=98&tbnw=130&prev=/images%3Fq%3Dmetro%2Bconsola%25C3%25A7%25C3%25A3o%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26um%3D1

Há uma citação recorrente neste blog de F. Zappa:

É dificil apresentar uma música nova no palco. Suponha que você seja um compositor desconhecido, e tenha uma idéia revolucionária. O que você vai fazer com ela?  (Frank Zappa, 1983)

No atual contexto, sinto-me à vontade para adicionar uma interrogação: a que horas eu apresento a minha idéia?

Eu sou músico e tenho uma banda. A que horas eu entrego o que tenho de melhor e mais ensaiado ao público? É aqui que começam os problemas.

Se o show começar cedo demais, meu público não saiu do trabalho ou está vendo novela. Se começar tarde, depois das 22h, o metrô pode fechar antes de uma parcela relevante de pessoas terem como voltar para casa.

Para quem tem carro essa publicação pode parecer irrelevante. Mas para que é cidadão…

A cidade de São Paulo, por exemplo, está mais viva do que nunca. O Centro passa por um processo de revitalização; muitas casas importantes para nós, músicos independentes, se abrigam nos seus arredores, próximas a estações de metrô, como a Livraria da Esquina, na Barra Funda.

Nós, músicos independentes, que queremos marcar uma época com nossas composições, não podemos tocar em happy hour’s de botequins; esse não é nosso público.

Os seguidores da cultura se locomovem, em geral, de ônibus e metrô. (Eu disse ‘em geral’). O público motorizado, possuidores de carros e motos, deve nos entender quando revelamos nosso protecionismo a quem depende de transporte público. Este é muito limitado no que se refere ao acesso à arte independe.

O StudioSP, uma das principais casas da música em São Paulo, tem seus eventos com horário de início muitas vezes depois da meia-noite. Quando o show termina, onde está o metrô? Onde está o ônibus? Estão recolhidos. Estão na garagem. E o povo está na rua. Na sarjeta. E quem não tem carro fica dependente de uma das bandeiradas mais caras do mundo: o táxi paulista.

Vocês acham que eu vou criticar o horário do show? Não tenho coragem. Dependo desse horário. Se eu tiver uma idéia revolucionária para mostrar no palco, o horário do StudioSP é perfeito.

É o metrô que fecha cedo!

Alguns dirão que há seres humanos trabalhando no transporte metropolitano, lutando pela sobrevivência… E, por um acaso, não são seres humanos aqueles que vemos nos palcos da madrugada da cidade, eles também, a propósito, lutando não só pela própria sobrevivência, mas também pela sobrevivência da cultura, da arte, de um povo, da mesma forma como fazem os funcionários públicos do transporte?

É algo chamado Mobilização, aquilo de que precisamos. Pois que somos nós, o povo, que deveríamos ter o controle de nossa casa, nosso país.

A cidade precisa de atender à demanda cultural; precisa de garantir acesso à cultura e à arte.

Apenas nós, seres pensantes, sabemos o bem que faria termos metrô vinte e quatro horas por dia…

Por amor à arte, por ofensa a ninguém.

Paulo Gianini

Por amor à arte, por ofensa a ninguém.

•janeiro 16, 2010 • Deixe um comentário

Chegamos a esse ponto: vivemos da nossa arte e fazemos de tudo para a nossa arte sobreviver.

Tocamos, transpiramos, brigamos, nos abraçamos… No geral, nos saímos muito bem. Por amor à nossa música; por amor ao nosso sonho, que nem todos compreendem.

Levamos tudo isso muito a sério e procuramos um pouco mais de espaço para andar e cada pedaço de chão; um pouco mais de espaço para compor em cada pedaço de papel, em cada gota de tinta.

Procuramos a loucura e encontramos a liberdade. Sem querer ofender a ninguém, estamos aqui por apenas um propósito: a nossa existência.

Nossa música toca em cada pedaço de vocês. No carro, no computador, no mp3…

Entregamos aquilo que temos de melhor. E, em troca, queremos respeito. Nós não somos estúpidos.

É a cultura do público nos faz saber que vale mesmo a pena.

Nosso preço não se traduz apenas em moeda. Mas no sorriso de vocês; na alegria e em cada pedaço satisfeito dos seus corpos.

Nos preparamos a semana inteira para esse show. Em cada compasso, em cada pausa…

Nos preparamos o mês inteiro pra esse show. Em cada silêncio e em cada acorde.

Acordamos todos os dias das nossas vidas buscando uma idéia inovadora para entregar a vocês.

Nos preparamos a vida inteira pra esse show. E estamos mais do que ansiosos pelo pedido de bis de vocês.

Estamos mais do que ansiosos pelo pedido de bis de vocês.

Sem vocês, não faria o menor sentido chamar o que aconteceu aqui de espetáculo.

Ainda é possível conseguir uma entrada. A recompensa é criar o público do espetáculo, mas ainda há lugares vagos.

O Curinga sabe. Ele nota que cresce por si só. Ele sabe que é tudo por amor à arte, por ofensa a ninguém. Nós morreremos pelo palco, porque o palco é nossa vida.

E esse é o nosso melhor chapéu.

Autor convidado: Fabulosa Banda do Curinga

“Estúpido é o artista que dá a sua música”

•dezembro 16, 2009 • 3 Comentários

Essa foi uma célebre frase de um dos maiores (em quantidade, não em qualidade) produtores musicais do nosso país.

Rick Bonadio, grande camarada que sabe como fazer uma banda ter grande reconhecimento comercial, disse isso através de seu twitter oficial, o @rickbonadio, em uma mini-discussão com Leoni e Fernando Anitelli.

Nosso Brasil, que popularmente e vulgarmente – e incorretamente, segundo meus cálculos, é chamado de “um país sem cultura”.

Nosso Brasil, de 190 milhões de brasileiros, com um PIB 1,3 trilhões de reais, o que daria, por cálculos rápidos, numa boa renda per-capita, mas que, INFELIZMENTE, tem uma das maiores desigualdades entre as classes A e D, perdendo apenas para México e mais meia dúzia de países.

Nosso Brasil, de Mutantes, Caetano, Chico, Cartola, Titãs. Um país com um dos maiores tempos por minuto/dia de acesso a internet.

Nosso Brasil, que aprendeu a se informatizar.

Que deu outro significado para o significante “ouvir música”.

Nosso Brasil, que o “nosso” Rick Bonadio chama, claramente, os usuários (milhares, milhares e milhares) de ESPERTALHÕES SEM CULTURA.

E, pra inteirar o nosso Rick Bonadio do debate, o termo “sem cultura” cabe no que chamamos de etnocentrismo, que vem daquele que vê a própria cultura como a mais importante cultura, desvalorizando as características alheias.

Agora nós, artistas independentes, que procuram uma saída, disponibilizar a própria música na internet é considerada ESTUPIDEZ?

Qual é a solução então?

Em 1983, Frank Zappa deu uma entrevista para uma revista de sociologia, para falar sobre sociologia e música. Arte e sociedade. Em uma das frases, Zappa faz uma pergunta pertinente:

É dificil apresentar uma música nova no palco. Suponha que você seja um compositor desconhecido, e tenha uma idéia revolucionária. O que você vai fazer com ela? – Frank Zappa, 1983

A resposta tá na ponta do mouse!!!

E é essa a questão. O artista aprendeu que o povo está com o fone de ouvido nas orelhas e com a mão nos teclados. É lá que ele tem de chegar. E o artista, com seus websites, megas e bytes, está mais nú do que nunca.

É agora ou nunca mais…

Não tem julgamento maior do que o do público. Chamar de estupidez aquele que se põe a prova é fruto de um desconhecimento da própria sociedade de uma forma imensurável.

Não estamos falando sobre preços e custo…. Isso hoje nem está mais em questão, mas sim de cultura. Do que o povo faz, de re-significar os costumes. E hoje, sem dúvida, baixar música é um costume de um povo COM cultura.

E o Radiohead está aí para provar que isso é verdade. E o Teatro Mágico está aí para provar que isso é verdade.

A discussão parece moderna, atual, mas ela vem de longa data.

Ainda na área da sociologia, Walter Benjamin escreveu em 1955 um artigo com o nome de “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, em que o alemão elabora todo um texto sobre os novos caminhos para a arte com a reprodução técnica. Benjamin fala especificamente sobre o cinema, e ele não tem idéia sobre o advento da internet, mas as palavras caberiam como luvas na discussão atual, veja só:

A metamorfose do modo de exposição pela técnica de produção é visível também na política. A crise da democratização pode ser interpretada como utopia crise nas condições de exposição do político profissional. As democracias expõem o político de forma imediata, em pessoa, diante de certos representantes. O Parlamento é seu público. Mas, como as novas técnicas permitem ao orador ser ouvido e visto por um número ilimitado de pessoas, a exposição do político diante dos aparelhos passa ao primeiro plano.

Ou seja, Benjamin fala claramente que a reprodução técnica ganha, de forma imediata, um tom político. A internet, então, serve como a vitrine para o artista social. E é por isso que bandas como Fresno e NXZero tem mais sucesso fora da internet, pois eles não são sociais, são praticamente apolíticos. Não contribuem em nada para a diminuição da desigualdade citada no começo do texto.

“O Parlamento é o seu público”, diz Walter Benjamin.

A verdade é que o artista que “dá” a sua música não é nem um pouco estúpido… Expor de forma imediata a sua arte não é sinal de estupidez, mas sim de coragem.

Corajoso é o artista que dá a sua música!

por Igor Fediczko

Tatit, Wisnik e Nestrovski.

•dezembro 1, 2009 • 4 Comentários

Foto: Alessandra Fratus

Esses três aí da foto  foram responsáveis por uma série de iluminações artísticas que passaram pela minha espinha dorsal na última noite de sexta-feira, 27-11, no Sesc Pinheiros. Ou seja, sobraram arrepios.

No cenário impecável: cadeiras, instrumentos, monitores e os músicos. Oito músicos dispostos de modo tão eficaz e simples, que não havia ponto no teatro que colocasse um músico na frente do outro. O mapa era perfeito.

Depois, um time de músicos de fazer repensar toda a minha carreira. Arranjos e execução à perfeição. Perfeição. Três violões de seis cordas (Nestrovski, Jonas Tatit e Luiz Tatit), bateria (Sérgio Reze), baixo acústico, elétrico violão de sete cordas e voz (Márcio Arantes), piano, Fender Rhodes, acordeon e voz (Marcelo Jeneci), sem falar nos mestres Wisnik, Tatit e Nestrovski, cantando muito, e na participação de Celso Sim, um cantor de nível tão alto que nem escada de bombeiro pra alcançar.

As composições dos nobres são de rir e de chorar; eles foram das gargalhadas às lágrimas umas três vezes. Emocionante, no amplíssimo sentido do termo.

A surpresa dessa publicação, entretanto, não está nos esperados elogios que sempre fazemos ao palco, quando gostamos do que vemos.

Dois elementos do anonimato se destacaram grandiosamente nesse show: Renato Coppoli (p.a.) e Fábio Retti (iluminação).

Eu fui num show com oito músicos tocando e mais me parecia o melhor disco, gravado, mixado e masterizado nos melhores estúdios e pelos melhores profissionais, como se tivesse o fone de ouvido mais caro do mundo… Esse foi o nível do p.a. do Renato Coppoli.

A luzes de uma delicadeza tão cabível que me fez chorar… Até uma estrela o Fábio pintou com luzes, na frente de todo o mundo, no meio do nada, no meio do palco.

Os dois não roubaram a cena, mas quase…

Impressão final: troquei o AC/DC pelo Tatit e não me arrependerei jamais. Não acho que alguém pagaria o preço da pista do AC/DC pra ver Wisnik, Tatit e Nestrovski no Sesc. Eu pagaria; isso seria culturalmente saudável.

Na última sexta-feira, 27-11, o melhor show do mundo não custou R$ 200,00… Custou R$ 20,00.

por Paulo Gianini

A queda de qualidade do .mp3

•novembro 21, 2009 • Deixe um comentário

quem dera eu fosse um músico
que tocasse só os clássicos
a platéia chorando
e eu contando os compassos
p.leminski

Essa foi a epígrafe do meu trabalho de conclusão de curso. Me formei em ciências sociais, e num determinado momento, resolvi que tinha que seguir para a área da parte social da arte. E é aqui que formamos o @designdamúsica. Um blog de quem se preocupa com a manutenção social da música. Qual é a cara da música?

A questão é antiga. No haikai de Leminski, a imagem do músico que emociona sem se deixar levar. Concentrado nos compassos, transforma notas em lágrimas.

Escrevi umas 50 páginas para falar sobre isso. A preocupação que o artista tem de procurar, a consciência que ele tem de ter, em não disponibilizar, por conta própria, um arquivo de .mp3 em 128k.

A conclusão é que tirei 10 no trabalho. Muito agradecido, chorei para inglês ver.

Por que? Pois me atrevi a dizer como que propriedades meramente físicas interferem no gosto social. Como que deixamos de gostar da sonoridade de uma bateria, por exemplo, por causa da qualidade do .mp3.

E hoje, quase um ano da conclusão do trabalho, algumas questões ainda encontam em mim, mas outras permanecem intactas.

Envio o link do trabalho para vocês:

http://www.4shared.com/file/156783486/f1dddc7b/projetofinaltccigor.html

por Igor Fediczko

Design da música é isso!

•novembro 16, 2009 • 1 Comentário

This is it

Aqui no blog, prestamos a falar sobre tudo aquilo que envolve os acordes, os tons e as letras. Prestamos aqui a falar sobre a áurea da música, sobre o sentido social da arte, sobre a disposição dos artistas em fazer música.

Falamos sobre o conceito que cada artista procura. Sobre a busca de uma música proposital.

Falamos sobre o design da música

Michael Jackson sempre foi conhecido como o Rei do pop, aquele que canta, dança, compõe, interpreta, cativa. “MJ” era o líder de vendas de um álbum – por Thriller, nos EUA.

Só que para quem não conhecia Michael Jackson tão bem, não se sabe se ele era um cantor ou um músico comprometido com o som, com os ensaios, com a própria banda, com os arranjos. Se Michael era realmente o rei do pop ou se parte do que ele significa também era devido a seu produtor Quincy Jones – que foi parceiro dele nos três primeiros álbuns, incluindo Thriller.

E no começo desse ano, Michael ensaiava para a volta aos palcos, para uma turnê de 50 shows que teria sua abertura em Londres.

This Is It é um documentário que dá conta de mostrar as gravações dos ensaios para essa turnê. This Is It são ensaios, e apenas ensaios. São raros os depoimentos, são raras as intervenções.

O filme mostra uma banda perfeitamente ensaiada, executando magistralmente as músicas de MJ, mas não é por isso que This Is It veio parar aqui nas linhas do blog.

A entrega de Michael Jackson aos ensaios é impressionante. Apesar de que suas declarações dizendo que “deus ama a todos” soam um pouco forçadas, a dedicação com a sua própria música é invejável a qualquer músico do planeta.

Ver o sincronismo dos dançarinos, o profissionalismo dos músicos, a preocupação – as vezes até excessiva – do diretor de palco, o trabalho de iluminação, de produção de vídeo. Não tem como não ficar de queixo caído para o preciosismo de This Is It.

Só para o nosso amigo leitor ter uma idéia do que o filme mostra, é possível notar, em diversas e diversas cenas, a perfeição com que MJ executa seus passos, onde a câmera se divide em duas, mostrando dois ensaios diferentes, e a repetição dos passos de MJ é praticamente idênticos.

Tudo é pensado. Tudo é milimetricamente pensado.

Quando falamos aqui no blog, em linhas e entre-linhas, que nada pode ser aleatório, é justamente disso que falamos. De um artista que procura, como o próprio Michael diz em certa cena, levar o espectador a lugares em que ele nunca esteve.

A arte tem de ser responsável pelas emoções que causa ao espectador. E o artista TEM de ser responsável por sua arte.

Ou seja, numa regra de três simples, o artista é responsável pelo espectador. É o artista que escolhe o tanto de trabalho que ele quer ter com um show. E Michael Jackson estava, decididamente, disposto a ir até o fim para fazer um show jamais visto.

Infelizmente, This Is It é o Making Off de um show que jamais existiu. Michael Jackson foi, mas deixa um legado invejável.

O artista desaparece, mas sua obra fica, servindo para sempre de inspiração.

Ins-piração.

por Igor Fediczko

Planeta Terra, terra de cabeça pra baixo

•novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Pra quem acompanha esse blog, sabe que por aqui nos preocupamos com tudo aquilo que vem junto com a música e tudo aqui que leva a música. A arte tem uma responsabilidade e muita gente se responsabiliza por ela.

Num desses sábados, estive no Planeta Terra, festival de música realizado em São Paulo que trouxe nessa edição ninguém menos que Sonic Youth e Iggy Pop.

Gostei muito dos shows. Não conhecia bem a obra do Iggy Pop, não conhecia muita coisa além do último cd do Sonic Youth, vi uma ou duas músicas antes do Primal Scream, acabei perdendo os shows do Macaco Bong e do Móveis, não conhecia The Ting Things, tampouco os outros artistas que tocaram no festival.

Tirando Copacabana Club, foi um festival digno de replay.

Deu para perceber que eu não relembrei grandes clássicos de minha vida, nem cantei alucinadamente nenhum refrão, mas mesmo assim, fiquei impressionado com a organização do festival.

Invejável até para primeiro mundo. Pra começar, o Planeta Terra desse ano foi no Playcenter – e se não podemos mais recriar woodstock, acho que a gente tem de reinventar de acordo com nossa realidade.

Internet WiFi gratuita para todo mundo, para tuitar pelos celulares e computadores de bolso. Ponto para o festival, que tinha uma grande rede social acompanhando tudo on-line.

TV Terra com entrevistas nos backstages logo após cada show, fazendo com quem fosse fã, acompanhasse desde os shows até as entrevistas depois.

Logo na entrada, todo mundo ganhou um ingresso VIP para voltar para o playcenter, um por pessoa.

Logo depois, a CocaCola, patrocinadora do festival, dava coca zero para todo mundo que entrava, gratuitamente. Acabei que toda hora que estava com sede, ia até a entrada e pegava um pouco. Não gastei um centavo com refrigerante.

Todos os brinquedos funcionando. Todos os brinquedos sem fila.

Cadeiras livres por todo o parque, para quem estivesse cansado de tanto pular de algum show.

Nenhum flanelinha  lá fora.

O som estava simplesmente perfeito. Vi uns 8 shows diferentes, NENHUMA microfonia. Nada que incomodasse aos ouvidos, sempre com muito grave, sempre soando muito bem.

O show do Sonic Youth foi o único que acompanhei do início ao fim. Fantásticos timbres, impressionante como criar aquelas camadas harmônicas só com guitarras.

Cheguei as 18h, saí de lá as 01h. Cansado e empolgado por ter gasto muito bem com a certeza de que ano que vem tem mais.

por Igor Fediczko

It Might Get Loud – Crítica

•outubro 28, 2009 • 1 Comentário
Parece ser um filme sobre guitarra. Não é.
Parece ser um filme sobre guitarristas. Não é.
Parece ser um filme sobre música. Não é.
É um filme que fala sobre o amor à música, pelos músicos que expressam sua vontade através da guitarra.
It Might Get Loud não estreou oficialmente no Brasil, mas no último sábado fui à 33ª Mostra Internacional de Cinema, aqui em São Paulo, para ver Jack White, Jimmy Page e The Edge. Sensacional.
Têm poucos solos, quase não fala dos equipamentos de cada um, não
enche o saco com erudição musical. É um filme sobre o amor à música, e a guitarra está ali apenas como instrumento. Apesar dos elogios à madeira, ao cheiro e às propriedades de uma guitarra, durante todo o filme o diretor David Guggenheim tenta deixar claro que a guitarra é um instrumento, e apenas isso. Poderiam ser três bateristas, poderiam ser pianistas, mas o que acontece é que foram escolhidos três guitarristas. E o que fica claro é o amor à música.
The Edge, em certa cena, se pergunta: “Sou apenas um guitarrista ou também um compositor?”. E essa é a tônica do filme. Os três falando sobre o seu amor à música.
Eu realmente achava que ia encontrar um filme que conta sobre as músicas do U2, sobre o pensamento retrô de Jack White, sobre a importância de Jimmy Page. Mas não… O Led Zeppelin mal é citado, The Edge explica muito pouco sobre suas invenções e Jack White não fala muita coisa sobre suas gravações.
O filme foca basicamente na história do The Edge entrando no U2 e no começo de sua carreira; em como Jimmy Page se tornou guitarrista e em de que maneira Jack White resolveu aderir à música.
The Edge mostra os primeiros lugares onde tocaram, onde ensaiavam e o mural em que ele leu, há muitos anos atrás, que “certa banda” precisava de um guitarrista. Mas sobre seus delays, muito pouco se fala.
Por um tempo, por algum motivo, mas pouco se mostra como The Edge se distanciou do estilo de tocar dos outros guitarristas.
Sobre o Led Zeppelin, muito pouco. A história de Jimmy Page é contada: o nosso amigo quase biólogo, ainda novinho, tocava em bandas de estúdio, até que descobriu que precisava tocar músicas diferentes daquelas das partituras. Com o It Might Get Loud conseguimos entender de leve o porquê da agressividade do Led Zeppelin, mesmo mencionando muito pouco a banda. Jimmy Page tinha uma necessidade visceral de abandonar o academicismo e os estudos. Os estudos e os estúdios.
Aliás, a cena que mostra onde foi gravado o disco “4″, numa casa com grande reverberação, é simplesmente emocionante. Jimmy Page explicando como John Bonham se identificou com o som da bateria na sala da casa e como ele queria que soasse é uma das melhores partes do filme.
Já as cenas sobre Jack White são quase um filme à parte. O documentário tem, pelo menos, quatro grandes passagens de Jack: a introdução do filme conhecida, com Jack White construindo uma guitarra com uma garrafa de coca cola; a cena do guitarrista tocando algumas músicas no piano; outra gravando uma música improvisada num antigo gravador de fita; e principalmente a parte do solo de “Blue Veins”, com o Raconteurs.
Trabalho magnífico, também, o realizado pelo diretor, que não tinha imagens de Jack White mais novo, mas conseguiu retratar muito bem a fixação de Jack pela bateria na infância. Uma animação em preto e branco, que mostra como Jack White dormia num quarto com duas baterias, é simplesmente fantástica.
Até agora, falei apenas das histórias dos guitarristas, mas o filme ainda conta com uma reunião dos três para falar sobre música e tocar algumas canções. Não há banda, apenas três guitarras. E o estilo de cada um se sobressai. Jack White fazendo solos com muitas notas e The Edge com pouquíssimas notas. A agressividade e a classe.
Para quem não é músico, apareça. It Might Get Loud é um brinde à música. Um filme que valeria a pena por Jimmy Page, mas ainda conta com mais dois. Um filme que valeria a pena por The Edge, mas ainda conta com mais dois. Um filme que valeria a pena por Jack White. E vale.
por Igor Fediczko

Tríplice Aliança (a guerra pela arte)

•outubro 20, 2009 • 1 Comentário

Essa publicação é sobre a melhor combinação da noite que eu conheço.

Essa publicação é sobre um lugar, uma pessoa e um instrumento, todos eles possíveis de se vislumbrar na foto que segue.

giba

Vamos por partes, não muitas, mas, ainda sim por partes, para dar os acentos corretos.

Teta Jazz Bar (Rua Cardeal Arcoverde, 1265). A pequena perfeição. Aconchegante, com som sempre da mais alta qualidade e, o mais importante, barato.

O Teta cumpre função social quando possibilita que o público tenha acesso fácil (geográfico e financeiro) a uma música selecionada, sem vínculos midiáticos. Para os amantes do jazz e da MPB, a visita é indispensável. O cronograma habitual? Ouvir boa música, comer bem e pagar pouco por isso. E um pleonástico ponto final nesse coneito.

Giba Estebez (www.gibaestebez.com.br). Provavelmente o herdeiro do que há de melhor em matéria de música executada em pianos ou teclados. Onde há teclas, lá estarão suas mãos, vibrando o impecável.

O que o Giba sabe não se ensina por aí. Nem ele mesmo pode ensinar sua grandeza, que não é questão de didática: é puro bom gosto, do começo ao fim do show.

Não há aluno do Giba que não se sinta musicalmente forçado a, eventualmente, responsabilizá-lo por todos os acertos e pedir perdão por todos os erros… Quando o aluno acerta, crédito do Giba; quando o aluno erra, faltou experiência.

Digo isso não em nome de todos os alunos do mestre (que opinam como bem entendem), mas em meu próprio.

Onde quer que Giba Estebez esteja tocando, lá estará um público satisfeito e precipitando lágrimas.

Nord (www.clavia.se). Electro (um, dois ou três), Lead, C1, Stage… Pode escolher. De plano, o melhor instrumento para um tecladista. Tecnologia de ponta que oferece meios para o devido cumprimento da função do tecladista profissional. E outro pleonástico ponto final sobre isso.

O vermelinho da foto é impossível. Na era moderna, é o melhor para reproduzir os insturmentos consagrados em muitos anos de música, sem ter que gastar anos e anos de salário mínimo.

Porém, cuidado! Toda Ferrari precisa de piloto. Quem tem deve usá-lo bem, para não cometer nenhum crime artístico.

Na infantaria para um mundo de cultura artística: Teta Jazz Bar, Giba Estebez e Clavia/Nord.

Paulo Gianini