Construam um foguete… E vão nele ao som de Elbow.

•13/04/2011 • Deixe um comentário

É quase a trilha sonora de uma viagem espacial. Se era essa a intenção, ou não, Elbow decolou aqui no Design da Música.

E foi longe…

Vou apostar em uma maneira diferente de fazer uma resenha. Pessoalmente, dou muita atenção aos aspectos técnicos de uma produção, como a mixagem, ou a letras – ou parte delas – que eu considere importantes.

Ocorre que fiquei um pouco sem ter o que adicionar sobre esse disco, em matéria de captação, mixagem e masterização. É simples: é perfeito.

No máximo, digo que a megalomania nem sempre dá num beco sem saída, mas sim pode levar-nos em órbita.

Os arranjos e as letras são fontes inesgotáveis de imagens. Em um tópico relacionado, já me foi chamada a atenção pela atriz paulista Thais Aguiar, que numa música, “as imagens levam o ouvinte a outro patamar”. Nisso, Elbow é peculiarmente eficaz.

“Old friends / You stuck a pin in a map I was in / And this is a note for a road sign”  - Old Friends

“There’s a bayonet in my family things” – High Ideals

“We got open arms for broken hearts” – Open Arms

Era isso. Sei que sou de escrever muito, mas não dá. Está tocando Elbow – Build a Rocket Boys no meu fone. Escrever virou secundário.

@paulogianini

Beady Eye – Different Gear, Still Speeding

•17/02/2011 • Deixe um comentário

“Nossos fãs não fazem assim [se levanta, bate palmas com cara de bonzinho e cotovelos grudados], os nossos fãs fazem assim [agita o braço no ar e fala alguns palavrões, seguidos de 'yeah!']“

Essa declaração de Liam Gallagher, na época do lançamento do último disco de sua ex-banda, Oasis, resume exatamente o espírito do primeiro disco da sua nova banda, Beady Eye.

A começar pelo título, um dos melhores de toda carreira de Liam: “Different Gear, Still Speeding”, algo como “Diferente engrenagem, ainda acelerando”. Mostrando quem é que está afim de fazer música na família Gallagher.

Para os que acham Beady Eye seria uma cópia de Oasis, a resposta é simples: não é. Para os que já ouviram a banda, e ainda acham que é parecido com Oasis, vamos lá:

Four Letter Word abre o disco pra cima, exatamente como Liam sempre quis, com teclado sintetizado imitando orquestra, como Liam nunca quis. E um refrão que diz tudo, ou quase tudo: “Não sei o que estou sentindo / uma palavra de quatro letras diz o que quero dizer / nada dura para sempre “

Millionare é uma balada tonal, inteira no violão, que antecede uma das principais músicas do disco, The Roller.

The Roller tem uma energia única, com pianos, sem as paredes de guitarras típicas do Oasis. Com um vocal mais tranquilo, mas ao mesmo tempo entusiasmante. Coisa de gênio, coisa de Liam. Vale a pena ouvir umas dez vezes para cantar junto. É uma das principais músicas de 2011.

A próxima música é Beatles and Stones, uma rock’n'roll básico de 3 acordes que diz tudo por uma frase da música: “Vou ser testado pelo tempo / Assim como Beatles e Stones”. Pronto final.

Wind up Dream preenche o disco, e segue por Bring The Light, outro ponto alto do disco.

Bring The Light vale um texto inteiro. Beady Eye fez de birra. Milhões de pessoas ao redor do mundo diriam que Liam e cia não conseguiriam fazer algo diferente do falecido Oasis, e Bring The Light foi a primeira música que vazou na rede, e por coincidência, Bring The Light é a música que mais se distancia do que era o Oasis. Refrão com coro feminino fazendo “ah, ahhh ahhhhhh”, a base inteira da música feito por pianos, backing vocal feminino cantando “baby c’mon”, clap por toda a música. Nada disso na história do Oasis e está logo na estréia do Beady Eye. Pra arrebentar com a crítica e arrebentar com o Grammy.

For Anyone é uma balada levada no violão, igualzinho as viagens que Liam tem com John Lennon. “Desligue o ar condicionado”, já diria Noel Gallagher em uma entrevista, quando Liam disse que “sentiu Lennon na casa em NY”. E os claps estão lá novamente.

Kill For a Dream é a mais Noel do disco, com detalhes, produção requintada, menos crua. Muito violão na cara.

Standing On the Edge of The Noise tem vocal saturado, inteira com base nas guitarras. Era o que eu achava que seria o Beady Eye. Crú, seco, sem frescura, rock seco. Mas aí surgiram os claps, os pianos, violões. Mas Standing On The Edge of The Noise é a única que vem para dar luz ao que Liam sempre disse.

A próximo é Wigwam, uma das minhas preferidas, segue com a parte A num acorde apenas, com refrão cantando Sha la la la la, e a letra dizendo open your arms, algo meio George Harrison num rehab, tentando tirar Dear Prudence de lá. Com muito efeito na voz, com piano nos arranjos, pads, termina de maneira muito bonita.

Three Ring Circus tem vocal sobreposto no refrão, com cara de que não será música para ser executada ao vivo (assim como Wigwam) e também tem o solo de guitarra mais bonito do disco, levada em 8/12. Ótima música.

The Beat Goes On simplesmente diz: “Meu coração vai continuar batendo”, da maneira que for, para quase finalizar o disco, em grande estilo, com The Morning Sun, outra música que começa calmamente no violão, e que tem um final explosivo, com a batida acelerada.
Beady Eye lembra tudo, inclusive Oasis.

Link para o disco: http://www.megaupload.com/?d=PJJVLIY5

DON’T STOP THE MUSIC: Mas tome alguma providência.

•02/02/2011 • Deixe um comentário

Toda vez que tomamos uma decisão sobre se gostamos ou não de alguma coisa, fazemos isso dentro de algum sistema de referência. Nada é ruim até que algo seja intragável; nada é bom até que algo seja ruim; nada é ótimo até que algo seja bom e assim por diante.

Quando alguém compõe uma música – não precisa ser músico ou maestro -, a melodia, o arranjo, o clima, o rosto e a função social dessa música têm alguns caminhos possíveis, que variam do intragável ao exemplar. O sucesso artístico dessa música (a arte aqui compreendida como a obra que modifica o ser e o motiva por caminho não-inverso a evoluir) não tem relação direta com a qualidade da composição. Ainda que devamos concordar que existam composições com poesias pobres e até vulgares, também é necessário reconhecer que o bom gosto é uma força que tem a condição e quiçá o condão de extirpar essas composições da vulgaridade e dar-lhes lugar de destaque e patamar de respeitáveis.

 

 

Tudo que se faz em uma música na ocasião de sua produção em estúdio reflete diretamente na mensagem de seu conteúdo poético. Quando o artista produz um vídeo, isso se multiplica.

A respeito do vídeo da cantora Rihanna, a despeito de ser, de cara, um de seus vídeos mais pudicos, algumas considerações são latentes: (1) a interação da cantora, no começo do vídeo, com uma criança, não conduz a nenhuma dedução que seja vinculada à música em si, nem, a propósito, a qualquer conduta legalmente aceitável; (2) o próprio ato de mandar o garoto silenciar induz à conclusão inevitável de que algo está por ocorrer de tão condenável quanto são as condutas de alguns padres. E deixemos assim.

Sobre isso, somente isso: a obrigação de educar é dos pais; o básico para o artista é não deseducar. Se o artista se sentir na obrigação de deseducar, que o faça como forma de protesto, contextualizado e com fundamento, jamais aleatoriamente e menos ainda com impulso único de vender, ou, no caso da cantora acima, sem trocadilho, vender-se.

Tudo isso é para dizer o quanto segue:

 

 

Na prática e tecnicamente falando, ambas as versões são igualmente dancantes. A versão da Rihanna é ligeiramente mais rápida, com bpm (batimentos por minuto) alguns pontos acima; porém, a versão de Cullum, ainda que mais cadenciada, mais devagar, mantem ritmo o suficiente para os embalos corpóreos, com uma diferença: a versão de Jamie Cullum não está maculada pela vulgaridade; não está destinada à indústria, mas sim guarda o necessário para o artista manter-se íntegro, comprometido com a função social ddas artes, além de garantir uma boa noite de sono a ele e àqueles que o ouvem.

Pago para ver um DJ da casa D-EDGE tocar essa música na versão do pianista.

Agora, o que mais causa espanto são algumas coincidências (do tipo não-óbvias, é claro): no meu pouco entender, dois elementos na versão do pianista, ainda que possam ser, não parecem aleatórias. A desconstituição do piano até sua explosão; e um pequeno detalhe logo após o término do vídeo, quando ouve-se o pianista dizer: “Yeah” (yes – sim, ou, no contexto, “é”).

Na minha interpretação, a explosão do piano, ao fim do vídeo, sustenta o seguinte: a crítica à indústria cultural, em específico a indústria pop, que contextualiza mal seus argumentos, suas músicas, seus vídeos, com proveito meramente capitalista, como quem diz: “não pare a música, mas tome uma providência” (Don’t Stop The Music, but do something about it). Em segundo lugar, o “Yeah“, ao fim da música é o mesmo que dizer: “Agora sim”. Ou seja, embora a música seja boa, a versão inicial em momento nenhum respeitava a qualidade efetiva da composição. O pianista precisou de regravar a música na intenção de argumentar que existe uma solução, um caminho melhor. Talvez não na intenção, mas certamente de sua versão resulta esse fato, essa esperança: há solução.

Quer uma prova de como há solução?

 

 

Nenhuma composição, nenhuma música deverá ser taxada como ruim até que algum artista responsável e comprometido com os mais básicos valores da arte demonstre a solução.

Nossos esforços são no sentido de ampliar o acesso ao que julgamos, aqui no Desig da Música, como na Fabulosa Banda do Curinga, ser a melhor expressão da Arte e fazer cumprir a Função Social da Arte, bem como propagar o conteúdo e importância desse conceito.

Como baseamos nossas preferências em sistemas de referência, façamos com que a maior quantidade possível de pessoas possa ter acesso à maior quantidade possível de referências, pois que é dessa amplitude de que resultará uma forma mais convincente de determinar o que vem a ser vulgar.

Para tanto, não pode haver preguiça. O mouse está aí pra isso.

Yeah.

Agora sim.

@paulogianini

 

Vai ver se eu estou lá na Livraria da Esquina!

•01/12/2010 • 1 Comentário

Clapton.

•16/11/2010 • Deixe um comentário

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@paulogianini

Jamiroquai: Rock Dust Light Star

•03/11/2010 • Deixe um comentário

Se os fanáticos por Jamiroquai queriam um disco novo é exatamente isso que conseguiram: um disco novo em vários sentidos.

Trata-se de um disco arranjado inteiramente pela banda e gravado inteiramente ao vivo na Tailândia. Na Tailândia? Exatamente. Recebemos, às véspereras desse lançamento, via newsletter, um pré-release do disco, esclarecendo a participação da Tailândia no disco. Em resumo, “trata-se da mesma qualidade de gravação que teriam na Inglaterra, exceto que fora dela e com comida melhor”.

Efetivamente, depois de haver escutado rigorosamente tudo o que já foi publicado pela banda ao longo dos anos, a impressão imediata que se tem é de que a Tailândia, no que compete à música, é uma excelente idéia. Com efeito, ainda que seja um “Jamiroquai inconfundível”, percebe-se com clareza que o disco inaugura imagens que só poderiam estar relacionadas à interação da banda com uma paisagem de grande beleza. Fala-se aqui do espírito do disco, certamente diferente de todos os outros.

Todo o disco é tocado e cantado com grande delicadeza, esta idealmente balanceada por opções de harmonia que já se anunciavam no disco Dynamite. Outro detalhe interessante que se observa é a participação marcante de guitarras, elemento nem sempre explorado pela banda, mas que agora aparece de modo muito relevante ao lado dos teclados, estes que contam tanto com elementos modernos sintetizados, como também com sons mais orgânicos e analógicos, como wurlitzer, Fender Rhodes e pianos acústicos muito bem gravados, obrigado.

Aliás, qualidade de captação, mixagem e masterização não podem ser alvo de nada que não seja elogio.

Quem conhece bem a banda deve concordar que, assim como John Mayer, o Jamiroquai é uma banda que já se inspira em si mesma, muito mais do que nos outros discos, a despeito de qualquer influência que tenha sido descarada no passado. O nível de identidade sonora do Jamiroquai é inigualável, assim como sua competência em misturar estilos. Bem lembrado: Rock Dust Light Star é também uma mistura comovente e competente de estilos.

É um disco de 12 faixas das quais destacamos… Bem, todas elas. Importante mesmo é escutar esse disco e dizer se concorda ou não.

Para que não deseja esperar mais do que 5 minutos para ouvir a obra, a resposta está na ponta do mouse, não é? Encorajamos, entretanto, a procurar o disco no melhor formato (.wav), para aproveitar ao máximo a qualidade de som oferecida pela banda.

Na nossa opinião, é uma banda que tem uma coletânia de obras conceituais que agora chega ao seu ápice e nos leva a perguntar: se vier algo depois desse disco, o que será?

@paulogiaini

Pensando a independência cultural: 31-5-2010 – Studio SP

•01/06/2010 • Deixe um comentário

Na noite de ontem, o Studio SP (www.studiosp.org) foi palco de mais um debate sobre o mercado musical.

O debate foi presidido por Penna Schmidt e teve a participção, no palco, do produtor Miranda, Ale Youssef (Studio SP), Pablo Capilé (Abrafin/ Fora do Eixo), Fabio Pedroza (Móveis Coloniais de Acajú), Talles Lopes (Abrafin/ Fora do Eixo) e Cláudio Prado (Cultura Digital).

Na platéia havia uma grande diversidade de profissionais, incluindo músicos, produtores, jornalistas, donos de gravadoras e projetistas culturais, todos oferecendo muita atenção e importantes inserções a respeito daquilo que se discutia: o mercado musical independente.

A presente publicação não tem o condão de ser relatório, oficial ou extra, do que foi dito na ocasião do debate. Apenas pretendemos  elencar os principais pontos expostos e concluir com base em nossas considerações pessoais, procurando oferecer sempre o melhor bom senso possível.

De modo geral, fica basicamente entendido que os festivais independentes promovem com muito êxito a circulação de bandas independentes por todo território nacional. O exemplo latente desse êxito pode ser verificado no sítio da Abrafin – Associação Brasileira de Festivais Independentes (www.abrafin.org). Outro caminho que tem se mostrado de grandioso valor para a circulação dessas bandas é o Circuito Fora do Eixo (www.foradoeixo.org.br), cuja conssecução de seus fins é baseada no ambiente colaborativo entre as bandas e os chamados Coletivos – em São Paulo, por exemplo, há o Amerê Beta Coletivo.

De modo sintético, percorrer o Circuito Fora do Eixo significa, para uma banda, visitar “vinte e duas cidades, em vinte e dois dias, fazendo vinte e dois shows”, como explicou Pablo Capilé.

Nos parece, entretanto e de todo modo plausível, que não é possível edificar o Circuito Fora do Eixo e a Abrafin como potenciais “salvadores” da cena independente. Conforme levantando pelo Design da Música no debate, todas as bandas independentes do Brasil não podem caber no Circuito Fora do Eixo e na Abrafin, não por falha em suas propostas, mas por ser demasiadamente complexo para apenas duas entidades abraçarem uma quantidade exorbitante de artistas.

O processo de conquista de espaço para a música independente depende, sem contar inúmeros outros fatores, da conciliação delicada entre artistas, produtores, casas noturnas, investidores, meios de mídia, divulgadores e assim por diante. Portanto, cai em equívoco o artista que: 1) supõe que seus problemas tenham sido resolvidos com o advento daquelas entidades; 2) criticam aquelas entidades pelo mero fato de não terem sido incluídos em determinado festival ou agenda fora do eixo; e 3) ignora sua própria responsabilidade ativa na ocasião de fazer valer o termo ‘independente’.

Claro ficou, ainda na primeira metade do debate, que a Música Popular Brasileira sempre se ergueu com ajuda de incentivos governamentais, principalmente pela isenção de impostos. Entretanto, essas políticas não estão presentes nos nossos dias (como referência, indicamos #fsvp, no twitter). A Abrafin promove mais de quarenta festivais em todo o Brasil, mas menos da metade conta com verba pública.

Desse modo, tem-se que, por um lado, a cena independente tem sobrevivido a despeito da ausência de incentivo público; por outro lado, não há pressão o suficiente por parte da classe artística no sentido de ampliar esses incentivos, ou motivação do Estado para inclusão dessas políticas em sua agenda, ainda que, convenhamos, seja direito do povo e obrigação constitucional do Estado o acesso à cultura.

Não confundir, entretanto, injeção de verba pública no desenvolvimento cultural com a existência de mecanismos como a Lei Rouanet ou o PROAC, que são incentivos oferecidos pela iniciativa privada, que verificam abatimentos tributários em seu favor diante de patrocínio vinculado àqueles mecanismos.

Deixamos claro que apoiamos a existência desse meios e aplaudimos as empresas que patrocinam o desenvolvimento cultural em troca de abatimento tributário; mas criticamos veementemente a falta de incentivo cultural feito independentemente daqueles mecanismos. Ademais, simples é notar que não basta. Ainda que que a cena independente tenha crescido nos últimos cinco anos, muito longe estamos de um ambiente sustentável em que os artistas percebam remuneração digna pelo seu trabalho. Isso não é apenas na música, mas no teatro e nas artes plásticas, literatura e assim por diante.

Daí dizer que – e se existe algo de leitura indispensável nessa modesta publicação é isso – a articulação da classe artística é urgente.

A Ordem dos Músicos do Brasil, por exemplo, jamais representou sua classe como deveria. Na verdade, é um tanto quanto inacreditável que a classe artísitca, em específico a musical, tenha sobrevivido ao desamparo, aos males da especulação da indústria fonográfica por parte das gravadoras multinacionais, entre outras situações.

Isto posto, se existe uma lição que se possa extrair do debate ocorrido na noite de ontem é que a classe artística precisa de se articular cada vez mais. Não apenas com entidades e movimentos da estirpe do Circuito Fora do Eixo e da Abrafin, mas também e principalmente a exemplo delas. Toda e qualquer entidade que se proponha a desenvolver a cultura encontrará, inexoravelmente, seu limite. Mas é nesse limite, na verdade, diante dele, que deverão surgir outros movimentos e entidades com os mesmos propósitos: promover a cultura independente e pleitear, perante municípios, estados, União e iniciativa privada, meios para a sustentabilidade da classe artística e, com ela, da cultura nacional.

É certo que muito do que foi falado do debate de ontem foi deixado de fora dessa publicação. Porém, focamos nossas apreciações nos itens que consideramos mais urgentes. Ademais, com base no conceito colaborativo ensinado pelo Circuito Fora do Eixo, esperamos e convidamos jornalistas, blogs, músicos, proprietários de casas noturnas, pessoas públicas e privadas, a produzirem suas próprias impressões a respeito do debate de ontem, de modo a promover esse diálogo fundamental, da forma mais variada possível, sem o que não cremos ser possível “fazer o debate andar”.

Lembramos que já está agendado o próximo debate. Dia 21 de junho, no Studio SP, às 19h.

Do modo mais moderno possível, RT, por favor.

@paulogianini

Las Venus Resort Pallace Hotel

•27/04/2010 • Deixe um comentário
“Hotel bom mesmo, de cinco estrelas, tem nome discreto.
Las Venus Resort Palace Hotel tem tipo uma estrela e meia, e olha lá.
A cerveja é quente, mas voce ADORA!”
Cibelle chega ao terceiro disco, com a certeza de quem ela é. Ou melhor, com a certeza de quem ela quer ser.

Se em “Cibelle” (2003) e em “The Shine of Dried Electric Leaves” (2006) a gente conhecia a voz, as influências, o estilo e o jeitão pós-tropicália (querendo voltar), é exatamente em “Las Venus Resort Palace Hotel” que a gente percebe que Cibelle se diferencia da maioria das cantoras do Brasil por um motivo: um conceito.

Estamos aqui no @designdamusica para ver além da sonoridade, e Las Venus é perfeito para isso.

Cibelle é roqueira, é gringa com suingue, é brasileira com personalidade, é agressiva com classe.

Basta uma ouvida em “Escute Bem” para saber por  que Cibelle é apaixonada por Caetano – e ela nem precisa dizer isso para a gente,  aqui do @designdamusica, saber. Basta uma ouvida na guitarra e as notas agudas da voz em “Brad My Hair” para entender por que ela é agressiva.

O disco tem sons de animais, não tem pausa entre as faixas, as sonoridades conversam entre si. É um disco conceitual, da cabeça aos pés.

Na edição física (mais conhecida como compact disc – que eu prometo que vou comprar!), a própria Cibelle disse que vem com um pôster. Quer entender por que Cibelle é muito mais que música? Então é só procurar por quem faz isso hoje em dia.

Até quando Cibelle tenta ser chata, ela não consegue. “Man From Mars” é um dub/eletronico que deixaria Fernanda Porto com inveja. Mas a profundidade da voz e o clima dos backings fazem com que o disco vá mais para perto de In Rainbows do que da chata Porto.

O clima tropicalista de “Melting de Ice” é típico de repeat. Não é pesado, não é leve. Não é clean, não é dark. É Las Venus, com a cerveja quente e tudo mais.

Em “Sad Piano“, Cibelle conquista aqueles que insistem em dizer que a década de 80 é a década perdida. As notas vocais de Cibelle, as melodias que a voz percorre e o domínio técnico que ela tem sobre a voz é lindo. Não tem efeitos exagerados, não tem produção inflada. É piano e voz, numa harmonia menor linda.

Cibelle canta mesmo, não é papo de produtor.

Escute Bem” é o ponto alto do disco. Acerta na cabeça, pega desprevenido aquele que ouve o disco no iPod enquanto faz cooper na av. Sumaré. “Você precisa agora apenas / É acreditar em mim / Que o não tem fim / E tudo pode ser maior, melhor que tudo, tudo“. Se você não parar de fazer cooper quando ouvir Cibelle cantando essa frase, pode parar que essa corrida tá fazendo mal para tua alma.

Sam Genders chega em “The Gun and The Knife” para fazer trilha de filme. Deixaria Nicole Kidman e Robbie Williams com ciúmes. É um dueto ao som de violão de nylon, efeitos de guitarra, flauta e reverberações.

Agora, se você não se convenceu da qualidade da moça, “Sapato Azul” é tua última chance. “Com os olhos bem abertos / guardo pequenas estrelas / pedacinhos de deus“, num clima impressionante. Pupillo na bateria, no melhor estilo Pupillo, sem grooves manjados, mas sempre muito simples. Catatau na guitarra, no melhor estilo Catatau, sem frases vindas de escalas conhecidas, mas sempre melodioso e muito musical.

Las Venus Resort Palace Hotel é rock, mas não é rock. É tropicália, mas hoje em dia. Tem swing brasileiro, mas é quase que 100% em inglês. Tem sonoridade gringa, mas é paulistana da gema. Soa como uma cantora excelente, que deveria estar em turnê no Brasil, mas mal aparece aqui nas terras tupiniquins.


Las Venus Resort Palace Hotel não é bonitinho. Tem uma estrela e meia, incomoda, é indigesto, mas a gente adora.

A exorcização de um gênio (parte II)

•09/04/2010 • 1 Comentário

Acabo de chegar do Sesc Pinheiros, onde tive o prazer de ver mais uma vez a genialidade de Otto.

Algumas semanas atrás, escrevi sobre o show de lançamento do disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, que Otto fez no auditório do Ibirapuera. (http://designdamusica.wordpress.com/2010/03/15/aqui-e-festa-amor-ou-sobre-a-exorcizacao-de-um-genio/). Hoje, pude comprovar a regularidade da genialidade de Otto.

Com certeza, um dos maiores nomes da cena mangue-beat, do estado de Pernambuco, Otto se entrega de tal modo no palco que parece que ele não está no controle do show. Demonstra que está ali como boa parte do público: como se cada minuto, se cada compasso fosse uma surpresa agradável.

Muito mais contido, segurando as próprias palavras – e deixando bem claro que queria segurar as palavras – a impressão que ficou é que Otto estava ali para fazer música. Não queria falar, e tudo que falou foi algo como “muita coisa eu penso enquanto canto, é natural, mas não vou falar tudo que passa por minha cabeça”.

Se Otto queria mostrar que merece elogios com motivos meramente musicais, então é isso que vamos fazer.

A  abertura dos shows vem sendo feita com a música filha. O tema é bastante claro, mas por que essa música para abertura dos shows?

O refrão de filha diz:

“Aqui é festa, amor / E há tristeza em minha vida”

Essa é a linha que segue durante o show. A exorcização de um gênio, que precisa berrar, gritar, vomitar toda a sua dor, fazer cada compasso virar festa.

É o aviso de Otto, e se ele não quis falar o que passou pela cabeça durante o show, é de se imaginar que os aplausos e gritos só trazem mais superação para essa festa.

Em Crua, (faixa de abertura do cd), mais uma vez Otto coloca a mão no rosto, imitando uma ligação de celular, durante a parte “mas daquela noite que eu chamei você, fodia”. O lado que pesa e o lado que flutua estavam por uma ligação telefônica, que pelo que parece, demorou 6 minutos.

A banda de Otto soa perfeita. Catatau continua sendo um show a parte, os timbres, os solos todos com o wah acionado, tudo é maravilhoso.

Pra Ser Só Minha Mulher foi uma das mais cantadas do show, Leite novamente foi cantada à capela, só esperando por Céu.

Em 6 minutos, música que fechou o primeiro set, na parte que seria: “de uma casa pequena / com uma varanda / chamando as crianças pra jantar”, o cantor quis ser ainda mais vísceral, colocando o nome da filha na letra, ficando “e você me falou / de uma casa pequena / com uma varanda / chamando a Betina pra jantar”.

Se há tristeza e dor, como Filha diz, berrar funciona, exorciza a dor e faz o lado que pesa começar a flutuar.

Jack White e a internet: culpa do mundo ou do músico?

•07/04/2010 • Deixe um comentário

“A internet é uma ótima ferramenta para muitas coisas, mas está em oposição ao conceito de tratar a música como arte e com respeito”

Esse assunto é recorrente e inconclusivo.

Em circunstâncias previsíveis, essa seria a oportunidade para criticar veementemente o guitarrista. Porém, não nos parece ser o caso.

Acreditamos que o Jack White saiba exatamente a proporção em que a internet beneficiou o seu trabalho. Embora arriscado, parece ser possível argumentar que o trabalho do guitarrista seria radicalmente menos conhecido não fosse pela internet e pelo filme It Might Get Loud (leia sobre em http://bit.ly/3yAMdM).

Qual, então, o motivo de um músico ciente dos benefícios que a internet o trouxe diria algo como

“Na minha cabeça, ainda vivo e trabalho como se não houvesse internet e a trato como uma chateação.”

Coisa de americano caipira? Pode até ser. Porém, pensemos no seguinte: do total dos leitores da presente publicação, uma fração certamente assistiu ao It Might Get Loud. Nesse universo de pessoas, algumas foram ao cinema, algumas alugaram o filme e outras, não sabemos quantas, baixaram o filme pela internet para assistir em seu computador. A pergunta é: baixaram em alta ou baixa qualidade? Mais ainda, a pergunta é: preferes baixar um filme em alta ou baixa qualidade?

Mesmo que sua internet seja lenta, não é preferível ter um filme em seu computador em alta qualidade? Quando visitamos o YouTube, sempre verificamos a possibilidade de assistir àquele específico vídeo em HD – High Definition. Sabe o motivo? Uma dica: é muito melhor. Sabe por que é melhor? Porque é fiel. Fiel ao que o produtor do vídeo quer transmitir. Além de favorecer aos olhos, ainda que demore um pouco mais para carregar.

Sempre queremos tudo na melhor qualidade possível. Toda a medida do Belo é a alta qualidade. Segmento áureo, simetria, olhos azuis, traços perfeitos, dêem o nome que mais os aprouver. Fato é: quanto maior a qualidade, melhor.

Ocorre que o Jack White, quando entra na internet, tem acesso a músicas em mp3, às vezes em míseros 92 Kbps. Nesse sentido a internet é efetivamente odiável. No caso do guitarrista em apreço, principalmente porque a música dele é veiculada pela internet no tipo de taxa citada; ele considera isso falta de respeito à arte dele. Quer uma notícia? Ele tem razão.

Discordamos do J. White quando diz que internet é chateação. Internet é ferramenta de acesso, de entretenimento, de acesso, acesso e acesso.  Coisa que durante muito tempo restou condenada ao anonimato, surgiu com a internet e, com isso, surgiu opinião, juízo de valor, análise, conceito e assim por diante.

A culpa não é da internet! A culpa não é do que o homem cria; a culpa é do homem, que usa mal o que cria.

Nós gastamos muito espaço baixando filmes e seriados gringos em alta qualidade, até em Full HD. Que tal baixar música em Full HD também? Garanto que ocupa menos espaço que filme e seriado.

O problema é a irresponsabilidade dos artistas com a própria arte. Bandas de todo o Brasil gastam vinte, trinta mil Reais para fazer um disco, mas disponibilizam para download em mp3 a uma taxa sempre inferior a 320Kbps, que seria o mínimo para uma padrão aceitável de qualidade.

É possível explicar o que se perde com taxas tão baixas, como 92Kbps, mas é difícil; a lista é longa. Digamos somente que sofrem a ambiência, o delay, a compressão, a equalização… O resultado!

Esse teu amor ao mp3 não vale nada. Pergunta ao @igordisco, que nisso é especialista acadêmico.

Quem sabe um dia o Jack White vá mudar de opinião. Mas a música precisa de ressurgir das cinzas a que foi reduzida pelo mp3. Se os discos das bandas forem disponibilizados em HD Audio, nossos ouvidos reconhecerão o melhor em matéria de qualidade sonora. A internet só deixará de ser contra a música quando a música for veiculada com o respeito que merece.

Chega de preguiça! O preço médio do MegaByte diminui a cada dia que passa.

Que bobagem… A internet sempre esteve a favor da música. Sempre esteve a favor do acesso. Acontece que a qualidade ficou pra depois, mas o depois ficou pra ontem. Mais qualidade é necessária.

Há quem fique até vinte e quatro horas esperando o download de um filme. De um episódio ou temporada de algum seriado. É porque querem assistir; e o querem da melhor maneira possível, ainda que demore. Se o seu público quiser mesmo ouvir ao seu disco ele vai esperar. Porque você merece. Porque você fez por merecer.

O problema é que o Jack White diz que a internet é inimiga da música, mas ele próprio não disponibiliza a própria música em alta qualidade. Por força de contrato ou por puro capitalismo, diga-se de passagem.

Não importa. Ninguém vai morrer pelas bobagens que qualquer artista importante vá dizer. Entretanto, iremos falecer diante do monte de cinzas da baixa qualidade. Cuidado… Entrar no páreo é oferecer alta qualidade, em sentido amplíssimo.

Nossa fonte para a publicação que chega ao fim foi http://musica.uol.com.br/ultnot/2010/04/06/jack-white-diz-que-internet-e-a-maior-inimiga-da-musica.jhtm.

Até uma próxima oportunidade, ainda que demore tanto quanto um download em Full HD.

@paulogianini

 
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