Na noite de ontem, o Studio SP (www.studiosp.org) foi palco de mais um debate sobre o mercado musical.

O debate foi presidido por Penna Schmidt e teve a participção, no palco, do produtor Miranda, Ale Youssef (Studio SP), Pablo Capilé (Abrafin/ Fora do Eixo), Fabio Pedroza (Móveis Coloniais de Acajú), Talles Lopes (Abrafin/ Fora do Eixo) e Cláudio Prado (Cultura Digital).
Na platéia havia uma grande diversidade de profissionais, incluindo músicos, produtores, jornalistas, donos de gravadoras e projetistas culturais, todos oferecendo muita atenção e importantes inserções a respeito daquilo que se discutia: o mercado musical independente.
A presente publicação não tem o condão de ser relatório, oficial ou extra, do que foi dito na ocasião do debate. Apenas pretendemos elencar os principais pontos expostos e concluir com base em nossas considerações pessoais, procurando oferecer sempre o melhor bom senso possível.
De modo geral, fica basicamente entendido que os festivais independentes promovem com muito êxito a circulação de bandas independentes por todo território nacional. O exemplo latente desse êxito pode ser verificado no sítio da Abrafin – Associação Brasileira de Festivais Independentes (www.abrafin.org). Outro caminho que tem se mostrado de grandioso valor para a circulação dessas bandas é o Circuito Fora do Eixo (www.foradoeixo.org.br), cuja conssecução de seus fins é baseada no ambiente colaborativo entre as bandas e os chamados Coletivos – em São Paulo, por exemplo, há o Amerê Beta Coletivo.
De modo sintético, percorrer o Circuito Fora do Eixo significa, para uma banda, visitar “vinte e duas cidades, em vinte e dois dias, fazendo vinte e dois shows”, como explicou Pablo Capilé.
Nos parece, entretanto e de todo modo plausível, que não é possível edificar o Circuito Fora do Eixo e a Abrafin como potenciais “salvadores” da cena independente. Conforme levantando pelo Design da Música no debate, todas as bandas independentes do Brasil não podem caber no Circuito Fora do Eixo e na Abrafin, não por falha em suas propostas, mas por ser demasiadamente complexo para apenas duas entidades abraçarem uma quantidade exorbitante de artistas.
O processo de conquista de espaço para a música independente depende, sem contar inúmeros outros fatores, da conciliação delicada entre artistas, produtores, casas noturnas, investidores, meios de mídia, divulgadores e assim por diante. Portanto, cai em equívoco o artista que: 1) supõe que seus problemas tenham sido resolvidos com o advento daquelas entidades; 2) criticam aquelas entidades pelo mero fato de não terem sido incluídos em determinado festival ou agenda fora do eixo; e 3) ignora sua própria responsabilidade ativa na ocasião de fazer valer o termo ‘independente’.
Claro ficou, ainda na primeira metade do debate, que a Música Popular Brasileira sempre se ergueu com ajuda de incentivos governamentais, principalmente pela isenção de impostos. Entretanto, essas políticas não estão presentes nos nossos dias (como referência, indicamos #fsvp, no twitter). A Abrafin promove mais de quarenta festivais em todo o Brasil, mas menos da metade conta com verba pública.
Desse modo, tem-se que, por um lado, a cena independente tem sobrevivido a despeito da ausência de incentivo público; por outro lado, não há pressão o suficiente por parte da classe artística no sentido de ampliar esses incentivos, ou motivação do Estado para inclusão dessas políticas em sua agenda, ainda que, convenhamos, seja direito do povo e obrigação constitucional do Estado o acesso à cultura.
Não confundir, entretanto, injeção de verba pública no desenvolvimento cultural com a existência de mecanismos como a Lei Rouanet ou o PROAC, que são incentivos oferecidos pela iniciativa privada, que verificam abatimentos tributários em seu favor diante de patrocínio vinculado àqueles mecanismos.
Deixamos claro que apoiamos a existência desse meios e aplaudimos as empresas que patrocinam o desenvolvimento cultural em troca de abatimento tributário; mas criticamos veementemente a falta de incentivo cultural feito independentemente daqueles mecanismos. Ademais, simples é notar que não basta. Ainda que que a cena independente tenha crescido nos últimos cinco anos, muito longe estamos de um ambiente sustentável em que os artistas percebam remuneração digna pelo seu trabalho. Isso não é apenas na música, mas no teatro e nas artes plásticas, literatura e assim por diante.
Daí dizer que – e se existe algo de leitura indispensável nessa modesta publicação é isso – a articulação da classe artística é urgente.
A Ordem dos Músicos do Brasil, por exemplo, jamais representou sua classe como deveria. Na verdade, é um tanto quanto inacreditável que a classe artísitca, em específico a musical, tenha sobrevivido ao desamparo, aos males da especulação da indústria fonográfica por parte das gravadoras multinacionais, entre outras situações.
Isto posto, se existe uma lição que se possa extrair do debate ocorrido na noite de ontem é que a classe artística precisa de se articular cada vez mais. Não apenas com entidades e movimentos da estirpe do Circuito Fora do Eixo e da Abrafin, mas também e principalmente a exemplo delas. Toda e qualquer entidade que se proponha a desenvolver a cultura encontrará, inexoravelmente, seu limite. Mas é nesse limite, na verdade, diante dele, que deverão surgir outros movimentos e entidades com os mesmos propósitos: promover a cultura independente e pleitear, perante municípios, estados, União e iniciativa privada, meios para a sustentabilidade da classe artística e, com ela, da cultura nacional.
É certo que muito do que foi falado do debate de ontem foi deixado de fora dessa publicação. Porém, focamos nossas apreciações nos itens que consideramos mais urgentes. Ademais, com base no conceito colaborativo ensinado pelo Circuito Fora do Eixo, esperamos e convidamos jornalistas, blogs, músicos, proprietários de casas noturnas, pessoas públicas e privadas, a produzirem suas próprias impressões a respeito do debate de ontem, de modo a promover esse diálogo fundamental, da forma mais variada possível, sem o que não cremos ser possível “fazer o debate andar”.
Lembramos que já está agendado o próximo debate. Dia 21 de junho, no Studio SP, às 19h.
Do modo mais moderno possível, RT, por favor.
@paulogianini
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