DON’T STOP THE MUSIC: Mas tome alguma providência.
Toda vez que tomamos uma decisão sobre se gostamos ou não de alguma coisa, fazemos isso dentro de algum sistema de referência. Nada é ruim até que algo seja intragável; nada é bom até que algo seja ruim; nada é ótimo até que algo seja bom e assim por diante.
Quando alguém compõe uma música – não precisa ser músico ou maestro -, a melodia, o arranjo, o clima, o rosto e a função social dessa música têm alguns caminhos possíveis, que variam do intragável ao exemplar. O sucesso artístico dessa música (a arte aqui compreendida como a obra que modifica o ser e o motiva por caminho não-inverso a evoluir) não tem relação direta com a qualidade da composição. Ainda que devamos concordar que existam composições com poesias pobres e até vulgares, também é necessário reconhecer que o bom gosto é uma força que tem a condição e quiçá o condão de extirpar essas composições da vulgaridade e dar-lhes lugar de destaque e patamar de respeitáveis.
Tudo que se faz em uma música na ocasião de sua produção em estúdio reflete diretamente na mensagem de seu conteúdo poético. Quando o artista produz um vídeo, isso se multiplica.
A respeito do vídeo da cantora Rihanna, a despeito de ser, de cara, um de seus vídeos mais pudicos, algumas considerações são latentes: (1) a interação da cantora, no começo do vídeo, com uma criança, não conduz a nenhuma dedução que seja vinculada à música em si, nem, a propósito, a qualquer conduta legalmente aceitável; (2) o próprio ato de mandar o garoto silenciar induz à conclusão inevitável de que algo está por ocorrer de tão condenável quanto são as condutas de alguns padres. E deixemos assim.
Sobre isso, somente isso: a obrigação de educar é dos pais; o básico para o artista é não deseducar. Se o artista se sentir na obrigação de deseducar, que o faça como forma de protesto, contextualizado e com fundamento, jamais aleatoriamente e menos ainda com impulso único de vender, ou, no caso da cantora acima, sem trocadilho, vender-se.
Tudo isso é para dizer o quanto segue:
Na prática e tecnicamente falando, ambas as versões são igualmente dancantes. A versão da Rihanna é ligeiramente mais rápida, com bpm (batimentos por minuto) alguns pontos acima; porém, a versão de Cullum, ainda que mais cadenciada, mais devagar, mantem ritmo o suficiente para os embalos corpóreos, com uma diferença: a versão de Jamie Cullum não está maculada pela vulgaridade; não está destinada à indústria, mas sim guarda o necessário para o artista manter-se íntegro, comprometido com a função social ddas artes, além de garantir uma boa noite de sono a ele e àqueles que o ouvem.
Pago para ver um DJ da casa D-EDGE tocar essa música na versão do pianista.
Agora, o que mais causa espanto são algumas coincidências (do tipo não-óbvias, é claro): no meu pouco entender, dois elementos na versão do pianista, ainda que possam ser, não parecem aleatórias. A desconstituição do piano até sua explosão; e um pequeno detalhe logo após o término do vídeo, quando ouve-se o pianista dizer: “Yeah” (yes – sim, ou, no contexto, “é”).
Na minha interpretação, a explosão do piano, ao fim do vídeo, sustenta o seguinte: a crítica à indústria cultural, em específico a indústria pop, que contextualiza mal seus argumentos, suas músicas, seus vídeos, com proveito meramente capitalista, como quem diz: “não pare a música, mas tome uma providência” (Don’t Stop The Music, but do something about it). Em segundo lugar, o “Yeah“, ao fim da música é o mesmo que dizer: “Agora sim”. Ou seja, embora a música seja boa, a versão inicial em momento nenhum respeitava a qualidade efetiva da composição. O pianista precisou de regravar a música na intenção de argumentar que existe uma solução, um caminho melhor. Talvez não na intenção, mas certamente de sua versão resulta esse fato, essa esperança: há solução.
Quer uma prova de como há solução?
Nenhuma composição, nenhuma música deverá ser taxada como ruim até que algum artista responsável e comprometido com os mais básicos valores da arte demonstre a solução.
Nossos esforços são no sentido de ampliar o acesso ao que julgamos, aqui no Desig da Música, como na Fabulosa Banda do Curinga, ser a melhor expressão da Arte e fazer cumprir a Função Social da Arte, bem como propagar o conteúdo e importância desse conceito.
Como baseamos nossas preferências em sistemas de referência, façamos com que a maior quantidade possível de pessoas possa ter acesso à maior quantidade possível de referências, pois que é dessa amplitude de que resultará uma forma mais convincente de determinar o que vem a ser vulgar.
Para tanto, não pode haver preguiça. O mouse está aí pra isso.
Yeah.
Agora sim.
@paulogianini
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~ por paulogianini em 02/02/2011.
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Tags: arte, don't stop the music, função social, jamie cullum, referência, rihanna, vulgar
